| Sonho, Lembra-se de nossa última noite em Paris? Esta manhã acordei sonhando com ela... Tínhamos passado o dia percorrendo a cidade, sem destino certo, perdidos entre a alegria do encontro e a tristeza da despedida. Lembra de quando sentamos naquele café e nos pusemos a escrever cartões postais para todos os conhecidos dizendo que fugiríamos juntos? Nós os mandamos ou não? Já não me lembro... Certamente não fugimos. Não poderíamos. E deixamos muito para trás para que pudéssemos viver o porvir, sem culpas e sem remorsos. Mas ainda não me conformo por ter esquecido meu cachecol naquela praça. Eu gostava tanto dele... Paciência. E então? Valeu à pena? Digo... o porvir? Sabe que todas as vezes em que preciso tomar uma decisão, escolher uma opção, decidir pelo caminho a seguir, lembro daquela “nossa última noite em Paris”? E quando isso acontece, fico me perguntando por que diabos esta consciência de que uma única opção pode alterar toda a nossa vida. Tipo, e se eu não tivesse tomado aquele trem? E se você desistisse daquele navio? Onde estaríamos agora? Gosto de pensar em nós, numa realidade paralela, onde teríamos nos conhecido há mais tempo, visto surgir algumas das marcas que já tínhamos quando nos conhecemos. E nesta realidade insólita, nós estaríamos envelhecendo em algum lugar exótico, assistindo ao pôr-do-sol, banhados pelo cheiro do mar, contando histórias do tal porvir... Mas quando olho ao redor e vejo o mundo que me cerca, não me arrependo. Desejo. Mas isso é diferente. Não posso trocar o que vi e vivi longe de ti, pois talvez já não te amasse tanto assim. E amo. Juro que amo. Amo tanto quanto naquela noite em que desvendamos a capital à revelia dos franceses. Na noite em que Paris foi mais nossa do que de qualquer outro casal, mesmo que só tenhamos sido um casal efetivamente naquela noite... Escrevo esta carta na esperança que o dia em que nos perguntaremos “Ei! Você se arrependeu?” nunca chegue. Porque mesmo tendo ouvido a sua voz, lido o seu dia, sentido o seu odor, nunca mais te vi depois de Paris. Talvez porque queira, de uma maneira que somente as amantes querem, que você seja para mim eternamente como naquela noite. E mesmo tendo envelhecido a sua imagem em meu pensamento com o passar dos anos, sei que o fiz somente para dar veracidade às fantasias. Em meu coração você terá para sempre o sorriso de menino daqueles dias. Quando escrevemos naquele banco nossos apelidos ridículos, quando rimos de nossas próprias piadas e sentimos pena daqueles que nunca sentiriam o que estávamos sentindo. Enfim... apenas me lembrei e escrevi. Assim você me ensinou... Beijo-te em despedida, Delírio * * * ... e então ela fechou os olhos aspirando o perfume que borrifara sobre o papel há três dias. Dobrou cuidadosamente e picotou em quadrados pequeninos. Lançou-os sobre a ponte para que, ao vento, se misturassem à memória do mundo e retomou seu caminho levando no sorriso um segredo só seu... |

1 Comments:
Não pude deixar de ficar emocionada com suas palavras.
Quanta coisa me veio à memória!
Ah! Como as lembranças são boas, não é mesmo?
Um grande abraço!
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